RIO - Atleta de vôlei de praia machucada. Correria para a sala médica da arena montada no Posto 2 de Copacabana. Profissionais devidamente capacitados fazem a massagem nos músculos mais doloridos da esportista. Ajudando-os, com um uniforme diferente, está uma estudante de fisioterapia, jovem moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
Sheila Fernanda Brito, de 28 anos e estudante da Estácio, chega todos os dias à Praia de Copacabana (em um percurso de duas horas de ônibus) por volta de 9h para trabalhar nos Jogos Mundiais Militares e só vai embora depois do último jogo, quando o sol já não brilha sobre o famoso ponto turístico. Na volta para casa, um pouco mais de duas horas dentro de um ônibus que procura fluir pelo tráfego invariavelmente intenso. Tudo isso de graça. Em troca, apenas, do aprendizado. (Assista ao vídeo)
Durante os Jogos Pan-Americanos, em 2007, muitos já haviam ficado surpresos com as dezenas de jovens que aceitaram ser voluntários durante o evento. Nos Jogos Mundiais Militares, que terminaram no domingo, 24, a cena se repetiu. A demanda para o próximo Rock In Rio é ainda mais impactante. Cláudia Romano, diretora de Parcerias Estratégicas da Universidade Estácio de Sá (instituição que apoia o festival), diz que a procura de estudantes para participar do evento já passa de 10 mil alunos.
— Desses, só serão selecionados 600, em um processo que passa por diversas etapas. Eles devem trabalhar na TV Rock In Rio, gerenciada pela universidade — conta Cláudia.
A procura por trabalho de graça tem explicações plausíveis. Participar de eventos marcantes como os que devem ser realizados no país nos próximos anos alia o entretenimento com o aprendizado e, de quebra, enriquece o currículo. Trabalhar em um grande evento contribui para o desenvolvimento de habilidades tradicionalmente valorizadas nas organizações. São aspectos como flexibilidade, jogo de cintura, relações interpessoais, administração da pressão, criatividade e habilidade.
— Estou aprendendo muito durante os Jogos. Vai ser ótimo para o futuro — antevê Sheila.
— Mais importante do que a experiência em si é como o jovem processa a experiência que ele vive. Ou seja, se ele realmente aproveita ao máximo a oportunidade, reflete sobre seu desempenho e, passado o evento, procura tirar o melhor desta reflexão — acrescenta Rosane Jablonski, consultora da Resch Recursos Humanos.
A imensa busca de jovens em participar de programas de voluntários ou de estágio de grandes eventos de entretenimento também pode ser visto pelo viés mercadológico. Estrategicamente é perfeito para grandes produtoras, que podem começar a treinar e capacitar futuros trabalhadores.
É o que faz, por exemplo, a Aventura Entretenimento, responsável pelo Oi Noites Cariocas e pela vinda de musicais de sucesso ao Brasil como "Hair", "A Noviça Rebelde", "Beatles num Céu de Diamantes" e "Um Violinista do Telhado", atualmente em cartaz. Luiz Calainho, sócio da empresa, chama a atenção para a falta de profissionais devidamente qualificados para trabalhar na área diante do crescimento exponencial do ramo da diversão no Brasil. Segundo ele, a cada evento vagas temporárias são criadas para as áreas de produção e de gestão de negócios e muitos profissionais acabam entrando para o quadro da empresa.
— É uma tsunami do bem. Digo até que há mais patrocinadores dispostos a investir em entretenimento do que eventos em si. Só que existe o problema da escassez de profissionais com conhecimento e experiência na área — diz Calainho, ressaltando ainda a importância de as instituições de ensino criarem disciplinas voltadas ao setor.



